Parceria ajuda a reflorestar a Mata Atlântica

Parceria ajuda a reflorestar a Mata Atlântica

Roberta Campassi
De São Paulo

A Takaoka Empreendimentos queria reflorestar uma área degradada correspondente a 15% de um terreno de 3,4 milhões de metros quadrados, que estava destinado à construção do residencial Gênesis, idealizado para colocar os moradores em contato com o verde. O plantio era uma forma de valorizar ainda mais o local, que já tinha 55% ocupados por Mata Atlântica original. Pelso cálculos da empresa, 180 mil árvores bastariam para recuperar a área degradada.

Foi quando Marcelo Takaoka, presidente da empresa, recebeu uma proposta da fundação SOS Mata Atlântica, para patrocinar um projeto de reflorestamento. "A SOS perguntou se gostaríamos de plantar 30 mil árvores e eu perguntei se poderíamos plantar umas 150 mil", conta Takaoka, rindo.

O projeto em questão é o "Florestas do futuro", criado em junho de 2004 e voltadoo exclusivamente para empresas. A SOS percebeu que a aproximação do segundo e do terceiro setor está aumentando e decidiu criar projetos totalmente direcionados às companhias privadas, cada vez mais interessadas em ter iniciativas ecológicas.

"Hoje temos melhores produtos para as empresas, que não querem mais doar dinheiro, apenas, e sim fazer parcerias e acompanhar os projetos", conta Márcia Hirota, diretora de gestão de conhecimento da SOS Mata Atlântica.

A entidade - que atua pela preservação da Mata Atlântica e trabalha com cerca de 50 projetos - sabe que empresas têm papel fundamental no desenvolvimento de programas ambientais. De 1995 a 2004, 40% do total de recursos recebidos pela fundação vieram de companhias privadas. É a segunda fonte de receita da SOS, atrás daquela obtida com os filiados - que somam 100mil e garantema ela o título de entidade sem fins lucrativos com o maior número de  filiados do país. Para este ano, seu orçamento é de R$8 milhões.

Quando foi fundada em setembro de 1986, a Fundação SOS Mata Atlântica sobrevivia apenas com recursos provenientes de organizações internacionais, como a Fundação MacArthur. Durante três anos foi assism, até conseguir o primeiro patrocínio de uma empresa brasileira, o Bradesco, e publicar a 1a edição do atlas que, de cinco em cinco anos, retrata o que resta da Mata Atlântica no Brasil.

o Bradesco também patrocina o "Florestas do futuro" com 60 mil árvores e é uma das empresas que mais apoiou projetos da SOS. Um deles é o Clickarvore, que funcionou por meio de um site, para qual o banco já doou 8 milhões de mudas. A doação das mudas está atrelada à venda dos títulos de capitalização "Pé Quente". No início deste mês, o banco Itaú, principal concorrente do Bradesco, também lançou um título de capitalização "verde", o PIC Itaú Natureza, do qual parte da venda será destinada a projetos de reflorestamento do World Wildlife Fund (WWF).

No "Florestas do futuro", são quinze empresas participantes. Elas pagam pelas mudas que serão plantadas em áreas desmatadas de cinco bacias hidrográficas. As empresas arcam com todos os custos de plantação e manutenção, que ficam e torno de R$10,00 por árvore, e a SOS faz todo oserviço. Ao final de cinco anos, já bem desenvolvida, a floresta é auditada pela PricewaterhouseCoopers.

As companhias encontram motivos diversos para contribuir com o projeto. Para Marcelo Takaoka, a parceria com a SOS Mata Atlântica viabilizou o reflorestamento. "Não tínhamos conhecimento para fazê-lo sozinhos", ele diz.

No caso da Volkswagen, que patrocina o plantio de 50 mil mudas, o projeto está associado à venda de caminhões que seguem a norma Euro 3, estabelecida pelo Conama para reduzir a emissão de poluentes. Para cada caminhão vendido neste ano, a empresa se comprometeu a plantar 10 árvores, na tentativa de neutralizar o gás carbônico (CO2) emitido pelos veículos. Segundo dados da SOS, 15 mil árvores compensa a emissão de 680 automóveis percorrendo 10 mil quilômetros por ano, por 10 anos.

Do total de 420 mil mudas patrocinadas, 200 mil já foram plantadas e as outras 220 mil aguardam a chegada de novembro, mês em que se inicia a estação de chuvas, que é a melhor para o plantio.

Como pano de fundo dos patrocínios, está e estratégia de associar o nome da empresa a causas louvadas pela sociedade. Segundo Márcia Hirota, a procura pelo envolvimento com o meio ambiente costuma ser maior por empresas que tenham promovido algum dano à natureza, como o desmatamento.

Para Mario Aquino Alves, professor da FGV-EAESP, o reforço da imagem e da marca das empresas é um dos motivos que levam a ações no terceiro setor, mas não é o único. Segundo ele, contam também o envolvimento pessoal dos tomadores de decisão e a construção de um posicionamento político.

A Repsol YPF, empresa de petróleo e gás natural, aderiu ao projeto com 15 mil árvores. Segundo Alejandro Roig, diretor de relações externas. investimentos como esse não geram retorno rápido, mas ajudam a construir uma boa reputação. "Essa ação vai ao encontro da estratégia da Repsol de ser reconhecida pela responsabilidade corporativa", afirma o executivo.

 

 
A SOS Mata Atlântica aprendeu a criar projetos 'atraentes' para conseguir o apoio das empresas,
diz Márcia Hirota.

 

Ecologia pode ter sua "Lei Rouanet"
De São Paulo

Está em tramitação no Senado um projeto de lei há muito aguardado pelas entidades ambientalistas e que poderá beneficiar as empresas que fazem doações a projetos de meio ambiente garantindo deduções no Imposto de Renda (IR).

O projeto de lei do Senado 251/02 está para o meio ambiente assim como a Lei Rounate(no.8.313/91) está para a cultura. Se aprovado, permitirá que pessoas físicas e jurídicas façam a dedução no IR devido de até 80% e 40%, respectivamente, do valor das doações feitas a projetos ambientais realizados por entidades sem fins lucrativos. O valor da dedução para pessoas jurídicas, no entanto, deve ser equivalente a no máximo 4% do total de IR a ser pago.

Elaborado pelo ex-senado Waldeck Ornelas (PFL-BA) o projeto foi aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado em caráter terminativo no fim de agosto e, caso não haja interposição de recurso nos próximos dias, deve ir à Câmara dos Deputados, onde fica na espera da votação.

Para que consigam fazer uso do benefício fiscal, o projeto prevê que os contribuintes façam as doações apenas aos projetos ambientais que forem aprovados e registrados no Fundo Nacional do Meio Ambiente.

De acordo com o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), atual relator do projeto, este pode sofrer resistências do Ministério da Fazenda, por instituir mais um benefício fiscal. Pode também não ser bem-vindo pelo Ministério da Cultura, pois doações feitas a projetos ambientais competiriam com aquelas destinadas aos projetos culturais. O senador acredita que o benefício fiscal "é um caminho interessante para financiar projetos de meio ambiente no Brasil." (RC)

 

Veículo: Valor Econômico - São Paulo/SP
 
Data: 21/9/2005
Editoria: Empresas/S.A.
Página: B-2